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Eu estava precisando liberar espaço no meu coração. Ou talvez estômago, porque sinceramente parece que eu sinto tudo por ali. Tanto a delícia de encontrar um homem bonito pra tomar cerveja e transar quanto a angústia de não vê-lo mais, tudo me dá frio na barriga. As tais borboletas que não morrem envoltas no ácido. Mas a questão não é essa, ou, ainda que seja, não me interessa. Onde quer que meus sentimentos fiquem guardados, no meu corpo ou na minha alma, eles já estavam transbordando. Não tinha mais espaço pra nada. Pior: acotovelados, eles passavam o dia inteiro tentando se acomodar como gêmeos no ventre da mãe, dando pontapés na minha barriga. Tudo doía. Eu caminhava pelas ruas, rememorando, e doía. Passava de ônibus por um ponto específico, na frente de um bar, doía. Ou acontecia de eu ter que cruzar pela casa de alguém da minha história, meu deus, mesmo que não fosse ninguém de tão especial assim, como doía, uma dor que se expandia e me tirava o fôlego. Assim, em tentativas de retomar a respiração, percebi que o problema não eram os sentimentos em si – era o excesso deles. Vivia como em uma casa abarrotada de móveis onde não se pode chegar até a cozinha sem bater o mindinho em alguma quina. Sim, eu concluí, esse era o problema. Vivi demais, amei demais. Agora tinha que arcar com as dor nas costas de carregar a minha bagagem.

Mas não dava pra seguir assim. Mesmo se eu vender os móveis, continuará sendo a minha casa. Mesmo se eu parir os gêmeos, continuará sendo meu ventre. Decidi: preciso liberar espaço no meu coração. E assim comecei a escrever. Registrei meus proto-relacionamentos que me engasgaram com suas mortes súbitas; registrei meu amor maior e dilacerador que moldou meu olhar de mulher adulta; registrei as noites nas ruas, os nomes que só pronunciei uma vez, todos os lindos olhos que sequer me viram nua; registrei minhas dores caladas, minhas dores sozinha, vestida, contemplativa. Registrei cada pedaço de memória que feito tempestade não tinha para onde escoar na minha alma. A canela da cachaça, o algodão das minhas calcinhas, a textura dos pelos de cada homem com quem eu me deitei, a estação de cada acontecimento. Registrei os casacos de lã que vestia eu ver L., D., H., e as regatas sempre pretas que G., R., M. cansaram de tirar. E registrando eu chorava, e morria junto a cada ponto final, e sentia de novo os perfumes que se depositavam nos poros da minha pele. Dói lembrar, mas dói mais ainda guardar tudo em baús com naftalina. Não há mais espaço em casa. Escrever é um mal necessário, mas eu precisava liberar espaço.

Desequilíbrio Químico

Parece que essa coisa de coração partido é só uma questão de desequilíbrio químico. Por isso eu reservo no máximo umas seis lágrimas pra essa eventualidade. Mas acontece que ontem eu bebia no bar onde mora meu coração e algum maldito colocou pra tocar na jukebox “Since I Don’t Have You” e eu senti a falta de dopamina. Eu sei que vai passar, a cada letra que eu digito vai doer menos, porque agora eu tenho uma carta na mão: agora eu posso escrever sobre o que aconteceu plenamente, não tenho nada a perder, só a recordar – trazer de volta ao coração com a nostalgia maior que a própria história.

Anteontem eu passei pelo café que nos encontramos oficialmente pela primeira vez. Caminhei pela Praça da Alfândega sozinha como sempre e graças a deus sem fones de ouvido pra ouvir Aerosmith ou, pior ainda, Billie Holiday. Porque meu coração de roteirista teve o masoquismo de colocar ela pra tocar na nossa última transa. Doeu mas foi bom, como tudo nessa vida, mas o masoquismo de ouvir de novo só na solidão do meu quarto, medindo as tais seis lágrimas, porque eu não sou de fazer cena na Andradas por um mero desequilíbrio químico.

Quando fui dormir senti minha alma caindo dentro do corpo. Seria bom que ela seguisse um caminho diferente dele, assim como aconteceu comigo e com ele. Minha alma ficaria como sempre foi, forte e autossuficiente, e só o corpo ficaria lamentando a abstinência. E assim eu poderia manter a delicadeza da lembrança sem o tumulto do desequilíbrio químico.

Somente meu corpo lembraria que apesar do pouco tempo esse foi o homem que mais me beijou na vida, que me ensinou a apreciar devidamente cada beijo que pousa na minha boca ou no meu pescoço como um gesto digno de si, não o prelúdio do sexo. Lembraria do cuidado que eu dediquei nas mordidas que dava no seu pescoço, que arrepiavam o seu corpo e em seguida o meu, com o roçar da barba. Lembraria do nosso encaixe perfeito, tão confortável e afetuoso que eu poderia transar e em seguida dormir encaixada, como se o corpo dele fosse mais berço que a própria cama. Lembraria de todas as dezenas de horas que ficamos naquela cama embaixo da goteira, das baratas que tentaram subir nela enquanto eu cavalgava o corpo dele. Lembraria do jeito meigo com que ele dizia que eu era linda e ria de me ver gozando. Mas seria maldade. Minha alma também precisa dessas lembranças tão lindas quanto eu fui pelos olhos dele.

Senão, pra que eu teria vivido tudo isso?

Profunda

Eu deixei escorrer litros de saliva pelo teu pau e mesmo ocupada assisti atentamente as gotas deslizando pelas tuas bolas, pelas tuas coxas, ouvindo teu suspiro desnorteado. Poderia dizer que durou vinte minutos ou uma hora, eu não saberia, eu estava tão presente que me descolei do espaço-tempo, veja só, minha mandíbula nem doía. Eu gosto de ver tua mão no meio de tudo e tentar engolir ela também. Eu vejo tuas veias tracejando os caminhos da minha língua, teu pau é tão vermelho, tua cabeça roxa, como as cores são lindas de perto. Não posso esquecer de respirar, não posso me distrair com as minhas próprias gotinhas de saliva cintilantes, com a contagem pacífica dos pelos da tua coxa. Queria poder olhar teu rosto, mas é anatomicamente impossível, é melhor assim, ele percorre a linha da minha garganta e tu segura as minhas coxas também. Eu não costumo gostar que segurem meu cabelo enquanto eu faço isso, mas tu sabe segurar de um jeito tão tentador, eu nem me importei. Eu fico tão feliz em te ver feliz. Não precisa nem avisar. Deixei tua porra se espalhar na minha língua antes de engolir. Olhei teus olhinhos fechados tão bobos. Pode morar na minha boca, eu deixo. Pode me alimentar de porra. Eu deixo.

Dejà-vu

No momento em que atravessei com minhas unhas ásperas o perímetro do lombo do meu novo rapaz tive um certo dejà-vu. Foi algo muito sincero que brotou na minha lembrança: alguém gostava que eu fizesse isso. E esse meu gesto somente ocorreu porque em algum momento da minha vida eu arranhava costas para satisfazer outra pessoa.

 

Mas não me lembro quem.

 

Deitada eu via o rosto do meu rapaz tão de perto que dava pra contar seus poros. Sorria talvez mais por dentro do que por fora. Devia ser por isso, por esse encantamento agudo em que eu estava inserida enquanto deitada naquela cama, que não conseguia lembrar de quem eram as costas que gostavam de ser arranhadas. Não conseguia sequer me concentrar. Sabia que não foi alguém muito fugaz – pra ter guardado na memória devo ter repetido o gesto muitas vezes. E sabia também que não foi alguém muito superficial – eu arranhava para agradar, e agradar não é algo a qual estou sempre disposta.

 

Meu menino saiu do quarto para ir no banheiro. Esse era o momento. Sentei na cama, fechei os olhos e garimpei bem fundo: de quem eram as costas que gostavam de ser arranhadas? Será Guilherme? Pedro? Maurício?

Não tinha nenhum outro insight senão esse: costas masculinas sem nenhuma característica diferencial. Só costas e minhas unhas percorrendo o caminho. Minha cabeça não me ajudava. Fiquei até mesmo brava.

 

Então ele voltou do banheiro. Deitou do meu lado, beijou minha testa. Em poucos segundos já não pensava mais em nada. Talvez não me interesse mais saber de quem são aquelas costas.

Um experimento ou Mais uma historinha

Eu poderia tranquilamente passar reto pelos eventos que antecederam esse encontro, pois desde o começo agi com a certeza de que no futuro os pormenores seriam irrelevantes. Por óbvio tive razão. De rosto e de corpo não tinha nenhum atributo digno de nota, nem riqueza intelectual ou talentos sedutores. Nada que eu não tivesse visto antes. Exceto uma coisa, a tal coisa responsável pelo meu interesse extremamente passageiro nele. Ou, talvez, a falta de uma coisa. Interprete como quiser.

Quando ele me contou numa monótona conversa assistida por um café morno mudei minha expressão até então opressivamente indiferente para fascinada. Momentos antes, minutos!, eu estava decidida a sair da mesa oferecendo, no máximo, minha bochecha na despedida. Que oportunidade eu perderia! Mas então, rapidamente, tudo mudou de figura. Meu espírito colecionador de histórias despertou de súbito, me implorando para que eu seguisse aquela empreitada às últimas consequências. Quando de novo eu teria essa chance? A vida é uma só. Que deus me perdoe pelos meus motivos sempre tão escusos.

Fui pra casa dele com uma garrafa de vinho embaixo do braço e a frieza de quem vai se submeter a um experimento puramente científico. Meu peito guardava, faceiro, minha curiosidade escondida e discreta. Era ela que me movia, que mandava uma perna após a outra, que na verdade sempre me moveu. E que, me provocando, sempre me sussurra “mas não daria aí uma bela história para contar?”.

Ele tirou a cueca e eu senti que o tempo esperou meu momento de observação. Então era assim. Imaginei que deveria ter doído. Trazia algo de infantil ou inexperiente.

Provei. De fato parecia mais prático chupar assim, como ele disse que haviam lhe dito. Achei divertido. Creio não ter olhado pro rosto do dono nem ter tocado em qualquer coisa que não estivesse atrelada à sua virilha. Afinal, poderia ser qualquer um. Meu encontro era exclusivamente com o tal pau circuncidado.

Depois o dono do pau quis me comer. Tentou, menos de cinco minutos, gozou. Eu sabia, eu sempre reconheço um pau inexperiente. Passou mais tempo me dando desculpas que dentro de mim, mas parece que a vida é assim. Não tínhamos mais assuntos a tratar, então parti. Sinceramente não fiquei brava, nem mesmo decepcionada. Tive exatamente o que eu queria: uma experiência inédita e uma historinha pra contar.

A Insistência

Somente deus poderá me julgar como a verdadeira ordinária que sou.

Não sei receber rejeições por três motivos: porque foram muito poucas, porque eram justificadas por situações específicas e porque quase sempre puderam ser revertidas, com algum nível de insistência.

Ele era casado, mas, para a minha defesa, fazia muito calor no dia que seria seu último em Porto Alegre. No mais, eu o achava pitorescamente bonito, porque agia como um homem feio, muito tímido e muito puro, abençoado com meigos olhos verdes tão separados quanto gentis. Talvez uma vez por ano esses tipos me atraem, para equilibrar minha variada balança. Deus sabe como eu tentei ignorar minha pulsão de putain, olhar para os outros lados, para quem estava totalmente livre. Deus também sabe que eu só enxergava a ele, aqueles olhinhos miúdos, tão difíceis de focar no meio de um bar lotado, último bar que ele beberia nessa cidade maldita, mas eu sequer piscava pra não perder de vista meu novo par de olhos verdes. Machado de Assis já descreveu melhor do que eu jamais poderia o que é ter uma ideia fixa.

Deus falhou em advertir apenas aos homens a não cobiçar a mulher do próximo. Minha cobiça se espalhava estalando pelas articulações enquanto eu tomava uma cerveja e conversava com ele. Ela se extrapolava em mim em seivas que escorriam pela minha boca e pernas, intercedendo pela minha vontade, arruinando qualquer tentativa de moral que eu pudesse conservar. Eu não deveria, eu sei, ele também sabia. Eu tive tão poucos olhos verdes nessa vida.

Ele me disse que não poderia. Que adoraria, mas não poderia.

Ora aí já se abria um terreno. Existia a vontade. Ele me achava bonita (e por que não haveria de achar?), sussurrava no meu ouvido “não vai dar” enquanto meus demônios no outro sussurravam “vai dar sim”. Traição é um conceito tão vago. Pedi um minuto.

Bebi mais um copo de cerveja num gole só. Foi alguma mágica, um último suspiro de hipocrisia. Foram mais uns 40 minutos de mesa. Mas eu o convenci.

Deus saberá me perdoar. Caso contrário não teria me dado o dom da insistência.

Eu tive a minha vitória. Transei com ele. Arranquei seus olhos. Eles agora moram no meu mural de conquistas.

Mas a última coisa que vi dentro deles foi culpa.

Manifesto semi-amoroso

Nunca vou saber qual é o parâmetro de amar demais ou de menos. Pode ser, afinal, que eu tenha amado muito pouco; que meu coração seja fechado, mal-humorado, taciturno. Mas, se ofereci meu corpo a tantos homens, foi com a singela esperança de que em mim despertassem, mesmo que por poucos momentos, um respingo de amor.

Nunca, jamais fui romântica além dos limites da cama – sempre achei muita tolice. Escrevi poucas cartas de amor, recebi à mesma medida. Minhas palavras pertencem a mim; aos outros, ofereci apenas gestos criptografados, sabendo que poucos estariam dispostos a os desvendar. Ofereci também minha boca, minhas pernas abertas feito um livro como que triagem para quem quisesse avançar para o meu coração. Ofereci meus olhos frios e seios quentes a quem tivesse a ousadia de confrontar-se com tamanho choque térmico. Ofereci meu corpo nu pelas horas enquanto energia houvesse – ainda que muitos partissem ofegando.

Nunca me dei por vencida, nem me acovardei mudando meu método. Sigo de braços e pernas abertas. Desejo quem me transborde, me ofereça sua própria boca, pernas, coração. Quem aceite tudo que meu corpo viveu, minhas marcas históricas, minhas estrias que traçam mapas pela minha bunda, as ranhuras dos meus lábios quando queimados no verão. Quem saiba de olhos fechados indicar onde moram minhas pintas, minhas cicatrizes, meu clitóris em toda a sua dimensão. Não quero o primeiro, e se não houver quem responda aos meus apelos, seguirei me oferecendo a quem decidir tentar.

Nunca quis o caminho mais fácil. Quero o caminho mais completo.

Eu sou uma mulher que menstrua.

Eu não estou interessada em nenhuma teoria – que não tenha sido concebida por mim mesma, enquanto segurando um copo de plástico com nada muito mais elegante que Skol ou Polar. Fiz 21 anos. Alguma mania precisava surgir, é a regra. Portanto decidi que não confio mais em homens que relutam ou até mesmo preferem postergar uma foda enquanto eu estou menstruada. Ou melhor: homens que têm nojo de mulheres menstruadas não são confiáveis e ponto. Não sou mais obrigada a me desculpar por estar perfeitamente saudável sangrando por cinco dias do mês. Não, não. Aceite.

Tudo bem, você não vai me chupar. Eu nunca faço questão mesmo, não é argumento. Nem dizer que vai sujar o lençol, a toalha, o que quer que seja. Pra isso existe a máquina de lavar e o tanque. Eu sei – eu sei – que o problema é com o seu pintinho mesmo. Não me enrola, rapaz, eu sei muito mais de homem do que o senhor, por isso mesmo venho por meio desta dizer que Não, eu não aceito mais ser enrolada. Não vai me comer menstruada não vai me comer nunca. Essa é a regra que passa a valer a partir da data desta publicação.

Pensa bem: eu não estou só sangrando. Eu estou completamente molhada, escorrendo líquidos – vermelhos ou não – pelas deliciosas paredes vaginais que você idolatra nas quais o seu pau pode mergulhar e se debater como um peixinho alegre em uma grande correnteza. Um lindo peixinho embalado em látex de camisinha, mas ainda sim usufruindo do magnífico poder de deslize que a menstruação representa no sexo. O peixinho não vai se sujar propriamente, viu? Até porque meu sangue não é sujeira, é coisa muito fina e valiosa que você deveria agradecer por existir e me manter linda mesmo aos olhos de homens cheios de frescuras.

E eu ainda preciso te convencer que isso é gostoso. Homem é muito chato mesmo. Se tem nojo de ver sangue, apaga a luz. Se tem nojo de melecar as coxas (ainda que as minhas possam sempre ficar grudentas de porra, não é mesmo?), façamos no banho. Sexo no chuveiro é sempre uma boa ideia – afinal, é o único lugar onde a gente termina mais limpo do que quando começou.

E se nada disso te convence, muito simples: bate uma punheta. É sempre uma opção. Bate uma punheta e não me liga mais, porque pra mim vai ser desse jeito de agora em diante: quem me come tem que me aceitar como eu sou. Mulher. Todos os dias do mês.

CONVIDADA: Sem Títulos

Por Laura Falkowski

Tua língua ou de outro

É carne

Sem nome

Tanto faz

Quem come

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Meu peito oco vazio

Não cabe lembrança de ti

Nem saudade de que me preencha

Minhas mãos tocam melhor

O corpo que tenho em mim

CONVIDADO: Cine Atlas

Por Elias Santos

Ah, o cinema de calçada, ele tem tanto charme. Muito antes dos shoppings aglutinarem em si boa parte da experiência cinéfila, eles eram os reis da sétima arte. Restam pouquíssimos deles na Porto Alegre de 2016 – um dos poucos sobreviventes é o Cine Atlas. Localizado no número 450 da Júlio de Castilhos, ele pode muito bem passar despercebido aos olhos de um pedestre desavisado, não tem uma fachada linda e nem fica em um prédio histórico.

Destoando um pouco dos outros remanescentes, ele não é um integrante do circuito cult da capital gaúcha. Nada de Almodóvar, Lars von Trier ou de Kleber Mendonça Filho. O maior clássico que pode chegar perto da solitária tela do Atlas é o famoso Garganta Profunda, de 1972. Caso não tenha ficado claro para os leitores mais puritanos, explicarei: estamos falando de um cinema que exibe filmes pornográficos.

Nossos caminhos se cruzaram uma única vez até hoje, no último nove de maio. A ocasião foi impulsionada por conta do meu aniversário que anunciava a chegada dos vinte anos em menos de 24 horas. Aniversários me fazer perceber o quão banana eu posso ser e despertam um lado impulsivo de minha personalidade.

Muito que bem. Peguei um ônibus na Osvaldo Aranha, desci na rodoviária e caminhei até lá. “São dez reais a entrada. Tem identidade?”, respondi que sim, ele me encarou por poucos segundos e mandou passar, sem sequer olhar a dita cuja.

Lá dentro a tela exibia um desses pornôs que não lembram muito o sexo da vida real, pelo menos não o da minha vida real. Gritos, violência, xingamentos, mais uma produção Brasileirinhas. Além de mim haviam mais umas dez pessoas acompanhando a exibição, a maioria homens, que ficavam evitando muito contato entre si.

Depois de um tempo percebi algumas dinâmicas: haviam prostitutas utilizando o local para seu trabalho, o entra e sai do banheiro, pessoas que davam voltas pelos corredores e eventualmente se sentavam na poltrona ao lado de alguém. Muito embora fossem exibidos filmes heterossexuais havia um punhado de relacionamentos gays acontecendo ali.

Fiquei sentado do começo ao fim de um filme, foi a primeira vez que assisti uma produção pornô por completo. Nesse tempo algumas pessoas me abordaram com umas  propostas sexuais, tentei rejeitá-las da maneira mais educada o possível. A verdade é que aquele experimento antropológico estava me despertando uma excitação de curiosidade, não uma de tesão.

Saí de lá e retornei à minha rotina comum. Comprei pão, frios e leite, voltei para casa. Conversei com minha família e nem comentei que o Cine Atlas havia feito parte da minha tarde, assim como fez o público que há décadas sustenta um dos últimos cinemas de rua de Porto Alegre.